Como foi o BlogCamp Switzerland
Ontem participei do BlogCamp Switzerland, em Zurique. O evento durou apenas um dia, que eu achei que foi suficiente. Afinal, o modelo Barcamp aplicado a um tema específico pode ficar cansativo se passar de umas oito horas seguidas de discussões.
Como era de se esperar de um evento na Suíça - ainda mais na parte alemã - o BlogCamp começou precisamente às 10 da manhã. Como no Barcamp Brasil que eu participei, pequenas folhas de papel com a logo do evento levavam os participantes ao lugar certo. Foi o suficiente para despertar aquela faísca de satisfação, para me fazer pensar "BarCamp é BarCamp em qualquer lugar do mundo, e agora estou em casa".
Super eficiente, o pessoal da organização preparou crachás numerados, que serviam para você ser identificado por um número na lista de participantes do site do evento. Ao invés de anotar correndo todas as informações da pessoa, você poderia apenas anotar o número e depois buscar as informações com calma.
Mas nem tudo são flores. Zurique é uma cidade muito cosmopolita, mas não tanto quanto Genebra. A esmagadora maioria dos pouco mais de duzentos participantes fala alemão-suíço (que ainda é diferente do alemão-alemão, e alguns alemães que conheci me disseram que não conseguem entender praticamente nada), e ainda que todos sejam razoavelmente confortáveis com o inglês, boa parte dos painéis foi feita em alemão. A minha única opção era ver se havia alguma discussão em inglês no horário e pular para lá.
Temas
Os dois primeiros painéis dos quais participei foram muito interessantes, ainda que a escolha tenha sido forçada pelo meu total desconhecimento da língua alemã.
Bruno Giussani (em inglês) falou sobre sua experiência com o Bondy Blog (em francês) - um blog que começou como uma experiência jornalística da revista Suíça L'Hebdo (em francês) onde todos os repórteres foram enviados de Lausanne (Suíça) para a conturbada e excluída região de Bondy, nos arredores de Paris, para falar sobre o lugar com a experiência de quem realmente vive e participa da comunidade. A experiência deu muito certo, mas depois de um tempo os jornalistas tiveram que voltar para casa. A revista resolveu então passar o controle do blog para voluntários da própria comunidade, depois de fazer os oito voluntários passarem por uma semana de treinamento sobre o uso de ferramentas de blog, técnicas (simples) de apuração jornalística, como reagir a comentários, etc. A experiência deu tão certo que o blog existe até hoje, com uma nova cara e hospedado no Yahoo francês, com cerca de 6mil visitas diárias e correspondentes em quinze outros locais da França.
O segundo painel do qual participei foi de Stephanie Booth, sobre dificuldades e desafios para blogar em diversas línguas. As opções que ela lista têm, cada uma, vantagens e desvantagens. Dentre ter dois blogs diferentes (não é verdadeiramente um blog multilíngua - cada audiência lê um blog e pronto), ter um só blog com o conteúdo duplicado nas diferentes línguas, traduzir o conteúdo usando ferramentas automáticas (que na verdade são muito ruins) ou simplesmente postar na língua que você bem entender, ela acha que a última opção é a que menos interfere no processo de blogar, que deve ser fácil, intuitivo e prazeroso. Mas, para evitar que sua audiência fique frustrada sem saber quando seu blog vai ser em uma língua ou outra, ela sugere que o blogueiro poste na língua que desejar, mas escreva sumários em todas as línguas. Assim a frustração do leitor é menor, já que ao menos ele irá saber o que está perdendo.
Depois do almoço, participei do painel sobre a metodologia Getting Real, da 37Signals. Mas a discussão promovida por Remy Blaettler não foi muito interessante, ao menos para mim. O que ele fez foi simplesmente resumir a filosofia "Less is more" da 37Signals, que eu já conhecia. E a discussão foi acalorada. Tão acalorada que eu não consegui perguntar a ele a dúvida que me corrói quando penso em Getting Real: como o desenvolvedor se sente quando tem que refazer tudo o que já fez? Essa sempre foi minha frustração como desenvolvedora (cliente que fica mudando de idéia o tempo todo é o pesadelo de todo desenvolvedor que eu conheço!). A partir daí criei um verdadeiro pavor de trabalhar sem documentação, sem contratos assinados e sem uma garantia de que, quando eu colocar a mão na massa, vai ser para valer. Exatamente o contrário do que a filosofia Getting Real prega. Enfim, fiquei sem a resposta que eu tanto queria.
Considerações finais
Talvez a culpa seja da barreira lingüística. Talvez os suíços sejam meio fechadões mesmo. Mas a verdade é que o BlogCamp Switzerland foi uma verdadeira decepção para mim do ponto de vista de fazer contatos, e, porque não? - amigos. Não é pedir demais não. Saí do primeiro BarCamp Brasil com amigos para a vida toda, e com uma sensação de fazer parte de uma comunidade de pessoas parecidas comigo, que eu posso contar e trabalhar com enorme satisfação em um futuro próximo. Do BlogCamp Zurich, eu saí de fininho, pouco depois do final do último painel, com uns quatro nomes anotados no meu caderno verde (já que o wi-fi se recusou a me dar um IP válido por todo o evento, e eu tive que blogar com lápis e papel mesmo), sendo que apenas um era suíço.
Do ponto de vista de idéias sobre blogs, a que ficou de verdade foi a de atuar como ponte entre as barreiras lingüísticas da internet. O tanto que eu puder blogar em português sobre as coisas que eu viver em inglês e em francês, e blogar em inglês sobre as coisas que acontecem na blogosfera lusofônica, eu vou blogar.
Originalmente publicado no Blaz. URL: http://www.blaz.com.br/node/14.
